quinta-feira, 19 de março de 2015

Cibercultura

Excertos da Monografia *“Flash Mobs, movimentos que transcendem o ciberespaço: uma ferramenta alternativa de comunicação” de Éverton Bohn Kist
(…) A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal.(…) Aqui cabe introduzir uma distinção capital entre possível e virtual que Gilles Deleuze trouxe à luz em Différence et répétition. O possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. O possível se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em sua natureza. É um real fantasmático, latente. O possível é exatamente como o real só lhe falta a existência. (LÉVY, 1996, p. 15)O que Pierre Lévy afirma é que a diferença entre o “real” e o virtual ou atual é algo não tão complexo como se imagina, que o virtual é algo que se atualiza, que tem toda a possibilidade e potencialidade de se tornar “real”, passar para o mundo concreto, porém continua subjetivo, não palpável. Em outras palavras, é possível dizer que o virtual existe em um outro plano, ao qual não se possui acesso físico. Não se pode adentrar no ciberespaço como se entra em uma casa, uma biblioteca, um museu. Mas mesmo assim nos fazemos presentes nesse mundo abstrato constantemente. (…) São com máquinas meticulosamente projetadas pela engenharia computacional que conseguimos as chaves do portão para este mundo não palpável. Através do uso destes artefatos, conseguimos penetrar, localizar e ser localizados nesse complexo mundo cibernético que nos envolve em sua emaranhada teia de fios e cabos. (…)
A informática, juntamente com a internet, torna-se um meio aglutinador de conteúdo, à respeito de todas as áreas. Uma vez que, o conteúdo é produzido também pelo usuário, a partir de inúmeras interconexões e cruzamentos de informações. Porém, uma consequência salta aos olhos, a liberdade que a informação ganhou a partir da revolução do ciberespaço. Por isso, e pelo fácil acesso a informação é que a cibercultura se desenvolveu tão rapidamente e ganhou tantos adeptos.
Com o processo de digitalização vivido hoje, a imagem, o vídeo, a música, as telecomunicações tornaram-se ágeis. Filma-se um acontecimento na rua, a partir de um celular ou uma câmera digital, e logo após se faz o envio do vídeo para o ciberespaço, disponibilizando esta informação para o mundo em uma velocidade fantástica. (…). É a velocidade incomparável vivida pela era das redes digitais. Porém as facilidades que encontramos hoje para utilizarmos o ciberespaço foram construídas passo a passo, através da evolução de várias áreas da ciência e do constante avanço da tecnologia. O homem, a partir daí, foi criando novas formas de se comunicar.
(…). Agora, com a criação e o usufruto do computador e do ciberespaço, qualquer pessoa pode ser um emissor de mensagens em larga escala, um comunicador de massa. Algo que possibilita o homem interagir, comunicar-se, compartilhar informações com seus semelhantes, afins ou não, mais rapidamente e sem a necessidade de um encontro no “mundo real”, transitando somente pelo emaranhado campo virtual, guiados por seus aparelhos informatizados que tenham acesso a rede mundial de computadores. Podemos compreender a cibercultura como a forma sócio cultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações e com a informática na década de 70. (LEMOS, 2003. p. 11)
A cibercultura surge com a necessidade de uma nova forma de relacionamento social, uma maneira de “encontro” sem a demanda de tempo para realizá-lo, sem a necessidade de deslocar-se até um local previamente estabelecido. O encontro ocorre pelo intermédio de máquinas, resultado de uma sociedade nova, aberta a novas tecnologias, que as recebe sem receio. (…). (…) Com a cibercultura, máquinas como o celular e o computador fazem esse intermédio entre as pessoas, facilitando a comunicação e possibilitando um elo entre indivíduos localizados em pontos totalmente opostos do mundo. (…). Podemos assim dizer que, o surgimento de uma nova cultura, a cibercultura, vem transformando significativamente não só as referências espaço-temporais, mas os modelos de comunicação baseados na lógica de rede, aproximando os modos de organização de produção e de organização social (SÁEZ, 2001: p. 215).
Sáez (2001) e Levy (1999) falam que a cibercultura está transformando nosso modo de perceber a distância e modificando as formas de nos relacionarmos com as pessoas, mas não é só isso, mudanças mais concretas tomam forma nas metrópoles e grandes cidades, como nos afirma Castells “As novas formas de comunicação sem fio estão redefinindo o uso do espaço de lugar e dos espaços de fluxos” (Castells, apud Lemos 2004). Horan complementa essas afirmações dizendo que “Nas cidades contemporâneas, os tradicionais espaços de lugar (rua, praças, avenidas, monumentos) estão, pouco a pouco, transformando-se em espaços de fluxos, espaços flexíveis, comunicacionais, “lugares digitais” (Horan, apud Lemos 2004). Através de Tecnologias como o Wi-fi, Bluetooth, as pessoas adquiriram uma liberdade e uma mobilidade ainda maior. É comum ver grupos de pessoas trocando arquivos via Bluetooth, formando uma rede de transferência de arquivos sem fio, caseira. Ou ainda, ver pessoas sentadas em praças, bares, cafés, ruas, avenidas, praias etc, conectadas a internet ao ar livre somente com um laptop, sem a necessidade do uso de cabos. (…). A intervenção da cibercultura nas paisagens urbanas é um ponto de convergência entre vários autores. (…)
(…). Estas inovações vão sendo incorporadas a sociedade, principalmente pelo público jovem, sedento por novidades. Porém, na época em que vivemos em que o “ser jovem” está na “moda”, estas tecnologias ganham espaço em todas as faixas etárias. Em meio a pós-modernidade, mãe e filha se vestem iguais, utilizam artefatos para serem aceitas como pessoas “bacanas e antenadas”. O falar jovem, o vestir-se jovem, os cuidados do corpo, as histerias sociais são, largamente, partilhadas (no todo social). Todos, quaisquer que sejam as idades, classes, status, são, mais ou menos, contaminados pela figura da “eterna criança”. Numa palavra, e este é o objeto de minha reflexão atual, parece-me que à estrutura patriarcal e vertical está se sucedendo uma estrutura horizontal e fraternal. (MAFFESOLI, 2007, p. 99) Vive-se em uma sociedade onde o pai deixa de ser a figura carrancuda, amedrontadora, a pessoa “quadrada” e passa a ter a imagem do amigo. E para ter essa imagem, as pessoas mais velhas tem que se equiparar as mais jovens em conhecimento e domínio da cultura atual.
A partir de tais reflexões, nota-se, que o ciberespaço ganha adeptos não só nas fileiras jovens, mas também nas pessoas adultas e nas de mais idade, que não querem ficar ultrapassadas e perder o contexto da contemporaneidade. Vivemos a era da comunicação e da mutabilidade por meio dela, vivemos a era da comunhão do “estar-junto” como meio de aceitação. Comunicar é passar de identificação em identificação, fora da noção de identidade imutável, na busca de prazer, de sinergia, da sintonia, da comunhão, da conjunção social, do estar-junto que permite viver intensamente o “fantástico do cotidiano” [..]Comunicar, na linguagem dos jovens de agora, é “ficar”. Mas este ficar é oposto da permanência. É um ficar que passa. […] Na pós-modernidade, a socialidade assume o papel de protagonista e ganha o primeiro plano no palco do vivido cotidiano. Portanto, a cena pós-moderna constitui-se pela comunicação como um desejo e um prazer de estar-junto válido em si mesmo, como um ritual não formalizado da vibração em comum. (SILVA, 2004, p. 45)
(…). É através do ciberespaço, que se percorre inúmeros quilômetros no espaço concreto, sem sair da frente do seu computador, é ele que promove o encontro virtual de pessoas separadas fisicamente. Foi a facilidade, já citada anteriormente por Sáez (2001), que a cibercultura nos possibilitou, a quebra de referências espaço-temporais. Através de meios eletrônicos temos acesso instantâneo com determinada pessoa, independente da distância que nos separa. Lemos (2003), afirma que toda a mídia quebra a barreira espaço-tempo, que esta não é uma exclusividade da internet ou do celular. Pinturas rupestres, escritas, telégrafos, rádio, televisão. Todos estes meios que conseguem separar enunciador ou autor do enunciado. Assistir um filme de Charles Chaplin, ler um livro de Edgar Allan Poe são exercícios de separação espaço-temporal. Pois o autor da obra já nem vive mais entre nós, como nos exemplos, mas seu trabalho persiste para a posteridade. Mesmo hoje, em pleno século XXI podemos apreciar e analisar pinturas feitas em cavernas milhares de anos atrás. Idealizadas, executadas há milhares de anos e apreciadas até hoje.
Levy (1999, p.15), afirma ainda, que nas sociedades orais as mensagens eram passadas no mesmo contexto em que eram produzidas, minimizando assim as possibilidades de uma interpretação errônea. Através de um diálogo, qualquer possível dúvida que viesse a existir, seria logo eliminada com uma simples pergunta direta ao seu interlocutor. Entretanto, muito conhecimento era perdido e desperdiçado pela dificuldade de transmiti-lo em grande escala e pela “regionalização da informação”, uma vez que, eram necessárias viagens para transmitir o conhecimento para outras pessoas e povos. Porém, com o advento do ciberespaço e da cibercultura, estas viagens podem ser feitas de maneira virtual. Após o surgimento da escrita, os textos se separam do contexto vivo em que foram produzidos. (…). A hipótese que levanto é a de que a cibercultura leva a co-presença das mensagens de volta a seu contexto como ocorria nas sociedades orais, mas em outra escala, em uma órbita completamente diferente. A nova universalidade não depende mais da auto-suficiência dos textos, de uma fixação e de uma independência das significações. Ela se constrói e se estende por meio da interconexão das mensagens entre si, por meio de sua vinculação permanente com as comunidades virtuais em criação, que lhes dão sentidos variados em uma renovação permanente. (LEVY, 1999, p.15)
(…) É a informação quebrando inúmeras barreiras, alavancada pela internet, um meio comunitário e igualitário, capaz de unir pessoas separadas por um “abismo” cultural e geográfico. Nota-se, portanto, que a quebra da barreira espaço-temporal não é uma exclusividade da internet e dos telefones móveis, porém, um de seus atrativos e diferencial, é o tempo real. Esta barreira do tempo e do espaço já não existe, mesmo para confecção do livro ou do filme. Porém, com a internet e o ciberespaço esta quebra é imediata, ao vivo. Por isso, o ciberespaço se apropria das qualidades das sociedades orais e as combina com as qualidades da linguagem escrita, tendo em vista que a internet é um meio de troca de informação e conhecimento, pode-se manter um diálogo, fazer perguntas, aglutinar informações através do conhecimento coletivo, minimizando assim os possíveis erros de interpretação. Com a quebra da barreira espaço-tempo, ocorre também o apogeu da “regionalização do conhecimento”, uma vez que não existem fronteiras espaciais e geográficas no ciberespaço; as informações trocadas via internet, em sua maioria, se dão de forma escrita, através de comunidades virtuais que Levy (1999, p. 27) define como “um grupo de pessoas que se corresponde mutuamente por meio de computadores interconectados”. Estas informações ficam guardadas ou arquivadas em e-mails, web logs, fóruns, disponíveis para acesso a qualquer momento.
Um dos atrativo mais marcante da internet é a liberação do pólo emissor de conteúdo. A linha fixa e precursora do mass media: enunciador, enunciado e receptor, assim como a barreira espaço-temporal, também foi quebrada. Na internet, produtor também é receptor e vice-versa. Através de um web log, miniblog, comunidade virtual ou outra das inúmeras maneiras de expressar a opinião na internet, qualquer pessoas pode se tornar uma formadora de opinião, quebrando assim a exclusividade que por longos anos foi privilégio de poderosos veículos de comunicação, que decidiam o que deveriam repassar ao público de acordo com o seu interesse. Por isso, afirma-se que a internet e o ciberespaço são meios comunitários e igualitários. Os tradicionais meios de comunicação tidos como de massa não são mais os únicos instrumentos formadores das idéias partilhadas pelos membros de uma sociedade. (…)
(…) A palavra chave desta era é a conectividade, a ligação entre as pessoas, que possibilita a transmissão de informações. Os indivíduos deixam de ser somente hospedeiros e repassadores da informação, tornando-se produtores de conteúdo. Através de web logs, paginas pessoais, e-mail, twitter, pessoas comuns, relatam suas experiências, seus anseios e divulgam suas opiniões sobre os mais diversos assuntos. (…) agora, muitos criam para muitos. “É a auto-geração de conteúdo, é a emissão auto-direcionada e é a auto-seleção na recepção por muitos que se comunicam com muitos” (CASTELLS, apud Schieck, 2006, p.3).
A internet e o ciberespaço chegaram para quebrar barreiras espaço-físico-temporais. Para “unirem-se” as pessoas não mais necessitam estar em um mesmo ambiente físico, basta a vontade e a afinidade em algum assunto, sítios de relacionamento, web logs, e-mails. São inúmeras as possibilidades e campos de relacionamento abertos pela rede mundial de computadores. Uma comunidade virtual pode, por exemplo, organizar-se sobre uma base de afinidade (…). Apesar de “não presente”, essa comunidade esta repleta de paixões e de projetos, de conflitos e de amizades. Ela vive sem lugar de referência estável: em toda parte onde se encontrem seus membros móveis… ou parte alguma. A virtualização reinventa uma cultura nômade, não por uma volta ao paleolítico nem as antigas civilizações de pastores, mas fazendo surgir um meio de interações sociais onde se reconfiguram com um mínimo de inércia. Quando uma pessoa, uma coletividade, um ato, uma informação, se virtualizam, eles se tornam “não presentes”, se desterritorializam. Uma espécie de desengate os separa do espaço físico ou geográfico ordinários e da temporalidade do relógio e do calendário. (LÉVY, 1996, p. 20)
Levy e Maffesoli discorrem sobre essas possibilidades comportamentais promovidas pela cibercultura de maneira muito semelhante, porém, com nomenclaturas diferentes. O primeiro, fala em comunidades virtuais, já o segundo, denomina este comportamento como tribalismo.
*Leia a Monografia na íntegra clicando AQUI
Fonte: https://grupopapeando.wordpress.com/2011/02/18/cibercultura/

A cibercultura na educação

A cibercultura na educação

Marcelo Mendonça Teixeira

Apesar dos evidentes benefícios para o processo de ensino-aprendizagem, devemos repensar a influência da internet e das novas tecnologias em nossa cultura, conscientes de seus pontos fortes e limitações,  como a falta ou a precariedade de acesso à rede.
 
O ciberespaço, responsável pela rede global de comunicação mediada, possibilita as relações tecnossociais atuantes na sociedade contemporânea, ampliadas por redes sociais: uma sociedade conectada, colaborativa, hipertextual, destituída de presencialidade física e apoiada por interfaces da Web 2.0, mais recente, por recursos da Web semântica e pela computação em nuvem. Outros tantos atributos são delegados ao universo virtual, assim como os problemas que dela fazem parte, como isolamento e sobrecarga cognitiva, informações duvidosas, dependência e infoex­clusão de milhares de pessoas que também querem fazer parte dessa cultura global, mas que, por algum motivo, geralmente de cunho econômico, estão longe de se tornar ciberculturais e integrantes de alguma geração digital.
 
O conceito de cibercultura 
A ausência de significado explícito na literatura nos condiciona ao étimo da palavra “cibercultura”. Assim, em sentido estrito, temos o prefixo “ciber” (de cibernética) + “cultura” (sistema de ideias, conhecimentos, técnicas e artefatos, de padrões de comportamento e atitudes que caracteriza uma determinada sociedade). No entanto, o ambíguo conceito sofre variações a partir do referencial etimológico, pois cada autor exprime uma conotação ideológica e descritiva própria que nem sempre é compartilhada por seus pares. Desse modo, optei por aqueles que se dedicam ao estudo das práticas tecnossociais da cultura contemporânea e de suas novas formas de sociabilidade, comutadas do mundo físico para o universo virtual (Teixeira, 2012a). 
 
Pierre Lévy, ao publicar A máquina universo (1987), lapida o conceito de cibercultura ao indagar questões pertinentes ao movimento sociotecnocultural em que a sociedade está inserida. Segundo o filósofo, este é um tema polêmico e multifacetado em que culturas nacionais fundem-se a uma cultura globalizada e cibernética, envoltas no ciberespaço e orientadas por três princípios: interconexão, comunidades virtuais e inteligência coletiva. Trata-se de um “conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (Lévy, 2010, p. 17). As “técnicas” condicionam as interações sociais, mas não representam a cultura do ciberespaço, que se incorpora no espaço virtual-cognitivo das pessoas, na partilha de sentimentos, informações e saberes. Afinal, “a virtualização é um dos principais vetores da criação da realidade” (Lévy, 2009, p. 18). 
 
Desde o final da década de 1990, a introdução das tecnologias de informação e comunicação (TICs) na educação é aceita por sistemas de ensino em todo o mundo como uma epítome do desenvolvimento educacional na história da humanidade. Nesse sentido, os governos nacionais têm investido massivamente na compra de equipamentos, softwares e formação docente contínua, à medida que surgem recursos tecnológicos inovadores.
 
Em situação contrária, o país é rotulado como uma nação pobre e infoexcluída pelo International Bureau of Education, órgão da Organização das Nações Unidas para a Educação e a Ciência (Unesco) especializado em educação com o objetivo de facilitar a oferta de educação de qualidade em todo o mundo. Na verdade, criou-se um estigma globalizado que correlaciona o aparato tecnológico da escola, da universidade ou do centro de ensino à qualidade da educação, tornando-o sinônimo de mão de obra qualificada, mas nenhuma evidência científica lastreia o argumento de que as TICs são decisivas na aprendizagem de jovens e adultos, conforme Aviram (2000).
 
Não seriam facilitado­res? Aviram propõe que o desenvolvimento mais significativo que acompanha a revolução das TICs na educação ocorre fora da escola, refletido na impressionante quantidade de alunos que não estudam em casa nem pertencem a nenhum sistema formal de ensino (prática comum no Reino Unido). Citando o caso inglês, o autor conta que os membros da classe média acreditam que as chances para o progresso educacional de seus filhos são maiores em casa (com o auxílio de materiais didáticos e grupos de apoio baseados na internet) do que na escola. O mesmo se estende à universidade, dados os milhares de alunos matriculados em cursos de nível superior on-line. A Open University, por exemplo, tem aproximadamente 250 mil estudantes no Reino Unido, na Irlanda e na Europa (www8.open.ac.uk /about/main/).
 
O ciberespaço possibilita o autoaprendizado, facilita a interatividade e estimula a troca de informações e saberes, mas não garante o sucesso do aprendizado, comumente desmotivado pela falta de estímulo. Disso decorre a importância da escola e do professor como mediadores do conhecimento a ser construído, aliados às estratégias pedagógicas, materiais didáticos e metodologias de ensino. Ainda assim, particularidades por vezes desconhecidas, outrora ignoradas, fazem a diferença quando “lincamos” educação a cibercultura. Diante disso, Lemos (2003) indica novas possibilidades de socialização do conhecimento através de três leis da cibercultura: lei da liberação do polo da emissão, lei da conectividade e lei da reconfiguração.
 
A primeira refere-se a uma modificação no modelo de comunicação até então vigente (meio massivo unidirecional — um para todos) e cede espaço à comunicação interativo-colaborativa (meio pós-massivo multidirecional — todos para todos). A máxima é “tem de tudo na internet”, “pode-se tudo na internet”. A segunda define que a rede está em todos os lugares, generalizada, interligando tudo a todos. Mediante a crescente interconexão entre dispositivos de comunicação digital, amplia a troca de informações entre homens e homens, máquinas e homens e também entre máquinas e máquinas. A terceira é contrária à mera substituição de práticas e favorável a seu redesenho em face das novas possibilidades instrumentalizadas pelo ciberespaço, evitando a lógica da substituição ou do aniquilamento dos antigos meios, já que, em várias expressões da cibercultura, trata-se de reconfigurar práticas, modalidades midiáticas ou espaços sem a substituição de seus respectivos antecedentes (Lima, 2011; Lemos, 2003).
 
Uma educação cibercultural
Para a educação, urge que implementemos mudanças no ensino tradicional, secularmente institucionalizado, reconfigurando práticas educomunicativas de acordo com o novo cenário sociotécnico atual, frente à emergência de novas formas de comunicação interativa (muitos para muitos) e da miríade de conteú­dos informativos na rede. Doravante, acompanhar a evolução midiática e fazer uso tanto dos antigos quanto dos novos recursos comunicativos é um imenso desafio, congênere às peculiaridades de cada contexto educativo (situações ambientais e transformações da consciência coletiva em rede), obviamente, em sentido figurado, tendo em vista que a alfabetização midiática não está disponível a grande parte da população mundial.
 
Aos afortunados “nativos digitais” equivale a realidade mencionada: um universo virtual que suporta o processo de criação, produção e distribuição de produtos, informações e serviços; a inteligência coletiva, o hipertexto e a inteligência artificial; as interfaces síncronas e assíncronas de comunicação; as comunidades virtuais, a colaboração em massa e a interatividade em tempo real, onde as pessoas estão conectadas e o conhecimento é compartilhado (através de imagens, vídeos, textos, áudios) em escala global (Teixeira, 2012b). A cibercultura totaliza esse contexto, símbolo de um período da história da humanidade marcado pela comunicação eletrônica e pelas mídias digitais, influenciando, direta ou indiretamente, a educação e os modos de ensinar e aprender. 
 
A cibercultura também se faz presente na educação por meio de múltiplas linguagens, múltiplos canais de comunicação e em temporalidades distintas. As interfaces da Web 2.0, por exemplo, permitem um contato permanente entre escola, professores, alunos e seus pares no ambiente virtual de ensino. Sem fronteiras para o conhecimento, os conteúdos educativos são trabalhados interativamente na comunidade estudantil, de forma síncrona e assíncrona, com a possibilidade de produzir e compartilhar conhecimentos colaborativamente com qualquer outro estudante em qualquer parte do mundo.
 
Contudo, apesar dos evidentes benefícios para o processo de ensino-aprendizagem, devemos repensar a influência da internet e das novas tecnologias em nossa cultura, conscientes de seus pontos fortes e limitações, como a falta ou a precariedade de acesso à rede. Além disso, é fundamental avaliar a capacidade do estudante para utilizar as tecnologias propostas como instrumento de produção de conhecimentos transdisciplinares, e não apenas de informação, redefinindo a racionalidade comunicativa em estratégias educacionais no ambiente virtual.
 
Em outras palavras, a abstenção não é realmente uma opção para instituições de ensino, professores e gestores educacionais, já que a introdução das TICs na educação faz parte de uma revolução sociocultural mais ampla e profunda que está mudando a cultura do mundo contemporâneo. Quem deseja sobreviver profissionalmente a essas mudanças ciberculturais não tem outra opção senão adaptar-se à época em que vivemos, marcada por novos modos de comunicação, estilos de vida, identidades, entretenimento, interatividade às novas formas de ensinar e aprender.
 
A adaptação, porém, requer uma estratégia bem definida, com base em uma clara compreensão da nova cultura emergente, dos valores explícitos e objetivos educacionais, evitando o instrucionismo mecanizado. Por isso, torna-se necessária uma literacia informática prévia entre educadores e educandos, como meio de melhorar competências, conhecimentos, atitudes e perspectivas sobre o futuro da aprendizagem, que é cada vez mais colaborativa. Os consumidores tornam-se produtores e os produtores tornam-se consumidores de conteúdos, bens e serviços, em um novo modelo econômico planetário, sem restrições ou barreiras, induzido por um processo contínuo de colaboração massiva (Tapscott e Williams, 2010).
 
Portanto, o conceito de cibercultura está em permanente transformação, com muitas conotações, idealizadas notoriamente pelas práticas tecnossociais da cultura contemporânea e de suas novas formas de sociabilidade no universo virtual, ou seja, uma virtualização cultural da realidade humana, fruto da migração do espaço físico para o virtual mediado pelas TICs e regida por códigos, signos e relações sociais dentro e fora dos espaços escolares. 
 
NOTA
1. O autor agradece à Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal (FCT), ao Programa Operacional Potencial Humano de Portugal e ao Fundo Social Europeu.

Fonte: https://www.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/9258/a-cibercultura-na-educacao.aspx

domingo, 12 de outubro de 2014

Caminhos da linguagem: uma visão transdisciplinar - lançamento de livro

A ideia de escrever este livro surgiu durante o Curso de Mestrado em Letras da terceira turma do PPG Letras UniRitter, Porto Alegre. A intenção inicial era convidar os colegas dessa turma, após defesa, para integrarem uma coletânea de artigos em que cada mestre escrevesse sobre seu assunto da dissertação, pois não nos parecia coerente que após um árduo trabalho de leituras, pesquisas e análises nosso trabalho virasse um livro de um único volume que, possivelmente, ficaria guardado em uma gaveta.

Caminhos da linguagem: uma visão transdisciplinar, o tema abordado por cada escritor surgiu a partir de inquietações observadas ao longo da experiência profissional, e em alguns casos, pessoal, vivenciada pelo autor. A singularidade deste trabalho está na diversidade profissional dos autores que compõem a obra. São profissionais da área educacional, pedagógica, jurídica, psicológica e militar, mas que estão unidos por um fio condutor único – o estudo da linguagem. E foi desta pluralidade que resultou esta obra, uma visão transdisciplinar mediada pela linguagem.

SUMÁRIO:

COPPETTI, Lígia. Influência Cultural na Linguagem utilizada
pelos participantes em um Ambiente Virtual de Aprendizagem

COVATTI e SILVA, Katiane. Análise Crítica do Discurso: Um olhar
crítico sobre o discurso e seus padrões de acesso

FRAGA, Dinorá & PREDIGER, Angélica. A TELA: aspectos
topológicos na construção de textos verbais e não verbais

GUIMARÃES, Dirce Maria. Sobre a Mediação Docente nos
primeiros anos do Ensino Fundamental

JARDON, Manuel. A Intersubjetividade para Bakhtin e Benveniste

LEFEBVRE, Rosane. Mecanismos Reveladores da Autoria no
Trabalho com Gênero “narrativa pessoal”

MELLO, Maíra. Ações e Interações no Ensino‐Aprendizagem de
Línguas em uma Escola Regular

PIRES, Vera & KNOLL, Graziela. Dialogismo e Comunicação: um
diálogo entre Bakhtin e Jakobson e suas contribuições para os
estudos da linguagem

RAMOS, Jairo Eduardo. O Gênero Discursivo na Esfera Militar do
Exército Brasileiro

SILVEIRA, Amelina. Como a Cultura Brasileira é mostrada em
Materiais Didáticos de Língua Português para Estrangeiros

SILVEIRA, Regina & ALVES, Eva. O Mito do Silêncio e as
Narrativas

AUTÓGRAFOS

QUARTA, 05 DE NOVEMBRO . MEMORIAL DO RS - TÉRREO . 18H

CAMINHOS DA LINGUAGEM: UMA VISÃO TRANSDICIPLINAR


Ligia Sayão Lobato Coppetti
Rosane Lefebvre
Pedro e João Editores
Vendas: Banca da AGEI (Associação Gaúcha dos Escritores Independentes)
Valor: R$27,00 (já com desconto da Feira)
ou encomenda pelo e-mail: ligia.coppetti@gmail.com

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Internet e escola de mãos dadas

Os livros e cadernos, aos poucos, estão sendo substituídos por tablets. O quadro negro, que depois ficou branco, agora é digital. As aulas podem ser assistidas a distância. E a tarefa de casa pode ser feita numa rede social. O que antes parecia coisa de filme futurista tornou-se realidade.
A tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano das pessoas, assim como na educação. Antes de isso tudo tornar-se tão evidente, o filósofo francês Pierre Lévy já defendia a teoria da inteligência coletiva e da cibercultura. Para ele, estamos vivendo o início de uma transformação cultural, em que a forma de construir o conhecimento é colaborativa. Lévy explica que os educadores precisam mergulhar na cultura digital, para compreender o universo dos estudantes. Além disso, ele salienta que os professores devem usar as ferramentas virtuais em benefício da educação, explorando suas singularidades e dando mais espaço para que os estudantes participem mais ativamente do processo de ensino-aprendizagem. Durante o V Congresso Internacional Conexão RCE (Rede Católica de Educação), realizado em Brasília, o filósofo conversou com a revista Gestão Educacional sobre as mudanças que precisam ser aplicadas na educação.
Gestão Educacional: Nos últimos anos, o Brasil tem se destacado no cenário econômico mundial. Infelizmente, no aspecto educacional, a situação está longe do patamar dos países desenvolvidos. Como educar para o futuro nesse cenário?
Pierre Lévy: Fico impressionado como os brasileiros têm uma ideia negativa do seu próprio país. Primeiramente, o Brasil está se transformando na quinta potência econômica do mundo, com uma taxa de crescimento muito elevada. Sim, tem analfabetismo, mas, apesar disso, há um esforço importante focado na educação. E sempre que eu venho para cá, vejo uma porção de profissionais focados, esforçados para trabalhar com educação, da educação infantil ao ensino médio. São pessoas que têm a consciência de que o futuro está nesse investimento em educação e em conhecimento. Então, não fiquem desesperados. Continuem com esse entusiasmo extraordinário que vocês têm. Claro, há problemas. E nós temos que resolvê-los com as ferramentas de hoje e com a visão do futuro. As pessoas precisam acreditar no hoje. E muitos professores têm essa visão.
Gestão Educacional: Quais são as dificuldades de usar ferramentas digitais em sala de aula?
Pierre Lévy: Não há obstáculos. Todos os estudantes têm uma habilidade extraordinária para usar esse tipo de ferramenta. Agora, os professores têm que conhecer tão bem quanto as crianças. Sobretudo, isso tem que ser utilizado numa ótica de aprendizagem colaborativa. Eu acredito que o professor precisa se capacitar, porque ele só pode ensinar aquilo que ele domina. Eu não acredito na formação do professor apenas para usar as redes sociais. O professor também tem que se esforçar. Utilizar isso para si próprio. É só uma questão de entrar nessa cultura. E de implementar o know-how pedagógico utilizando essas ferramentas.
Gestão Educacional: Podemos dizer, então, que a forma de ensinar mudará nos próximos anos?
Pierre Lévy: Sim, estamos no início de uma grande transformação cultural. Hoje, nós podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo. O banco de dados da internet funciona como uma biblioteca única de todo o mundo. E nós podemos usar essas informações, que podem estar em outros idiomas, porque já há ferramentas que traduzem tudo para nós. Esses três processos eu chamo de ubiquidade, interconexão e manipulação automática de símbolos. Essa é a nova situação que vivemos. Isso está ligado à educação, porque temos que preparar os alunos para essa nova realidade. Mas temos que nos preparar antes de ensinar.
Gestão Educacional: E o que seria a gestão da atenção? E como ela contribui para diminuir a chamada sobrecarga cognitiva?
Pierre Lévy: A gestão da atenção não é algo que começou com as ferramentas digitais. A disciplina mental, aprender a concentrar-se, é algo que sempre foi útil e que deve também ser aplicado com essas ferramentas. Não é possível estar diante de uma tela de computador e, de uma hora para outra, esquecer o que se está fazendo e ir fazer outra coisa, de qualquer jeito. Diante do computador, é necessário controlar a sua mente e se concentrar num objetivo de aprendizagem e de colaboração. A sobrecarga cognitiva é realmente um problema falso porque é o mesmo que dizer que há livros demais em uma biblioteca. Muitos livros não provocam uma sobrecarga cognitiva. Você aprende a utilizar os arquivos da biblioteca, as fichas, a escolher um livro mais adequado com seu objetivo e você lê esse livro. A gente não vai começar a ler a primeira página, depois buscar outro livro. Na plataforma on-line acontece o mesmo. É a responsabilidade pessoal que faz a diferença.
Gestão Educacional: Mas muitos professores reclamam que os alunos ficam dispersos diante do computador ou do celular.
Pierre Lévy: Bom, eu também tenho alunos e quando eu dou aula, eles ficam olhando para o celular também. Eu sou super severo. Eu proíbo que eles olhem o celular durante a aula. Mas, em certo momento da aula, eu digo: “pronto, agora vocês podem olhar o celular”. E todos eles olham. Eu também passo um exercício. Eles podem “tuitar” alguma coisa ou eles têm que buscar alguma coisa no Google, no Wikipédia. Depois eu digo que acabou e é hora de desligar o computador e desligar o telefone. A gente precisa aprender quando ligar e desligar o aparelho, utilizando-o conscientemente. É um domínio de si próprio, uma disciplina. E essa disciplina já tem que ser ensinada desde a escola primária.
Gestão Educacional: Algumas escolas já usam o tablet como material obrigatório, substituindo livros e cadernos. Até que ponto é indispensável que cada aluno tenha o seu computador em sala de aula?
Pierre Lévy: É muito difícil manter as antigas ferramentas de leitura e de escrita durante muito tempo. Então, daqui a alguns anos, eu prevejo que o material escolar de hoje será substituído por tablet. Mas não o tablet de hoje, mas o tablet de amanhã, no qual nós teremos todos os manuais didáticos, as ferramentas de escrita, de pesquisa. Um tablet como ferramenta de trabalho. Um tablet que permita fazer anotações nas margens de livros. Coisas assim que ainda são um pouco difíceis hoje em dia. Vai ser algo mais leve e, possivelmente, até custe mais barato. Agora, uma sala de aula é difícil imaginar. A gente nem sabe como vai ficar essa noção de sala de aula completamente. Porque são questões muito complexas. Isso é um processo em curso.
Gestão Educacional: Em vários estados brasileiros, os professores estão recebendo computadores ou tablets. O que o senhor acha disso?
Pierre Lévy: Isso é muito bom. A gente não pode ensinar aquilo que a gente não sabe. Não dá pra ensinar se a gente não domina.
Gestão Educacional: As novas tecnologias podem prejudicar?
Pierre Lévy: Não. As novas mídias não têm impacto negativo. O impacto negativo acontece quando as pessoas estão expostas a coisas negativas. O problema não é a internet. É a falta de disciplina mental. Seria o mesmo que dizer que as estradas são malvadas porque matam gente. Não, na verdade são as pessoas que dirigem mal.
Gestão Educacional: Mas alguns alunos hoje já têm dificuldade de escrever, porque lidam mais com a digitação.
Pierre Lévy: Aprender a escrever é importante, claro. O que ocorre é o mesmo [que acontecia] quando as pessoas começaram a ter calculadoras. Antes, todos faziam o cálculo mental. Hoje, ficam sem saber se não tiverem a calculadora do lado. No futuro, a maioria das pessoas vai escrever e ler com essa nova ferramenta.
Gestão Educacional: Como o senhor usa as redes sociais com os seus alunos?
Pierre Lévy: Por exemplo, todos os meus alunos têm Facebook. Mas geralmente eles não conhecem a funcionalidade grupo. O que fazemos é o seguinte: formamos um grupo e, a cada semana, cada um tem que postar alguma coisa. Um vídeo, um link relacionado ao tema da aula. Os outros têm que ler o que o colega enviou e comentar, discutir junto. Então, eles alimentam o grupo e eles aprendem a discutir. Se um postar alguma coisa que o outro já postou, ele fica com uma nota ruim porque significa que ele não prestou atenção nos outros. Também não pode fazer uma pergunta que já foi respondida. Eu tento ensinar a economia na comunicação para que não percam tempo. São coisas assim, que se tornam úteis.
Gestão Educacional: Isso seria a inteligência coletiva?
Pierre Lévy: Sim. A própria internet é uma memória de produção coletiva. De certa forma, isso sempre existiu, porque o que conhecemos hoje é uma herança do que já foi feito. A escola do futuro será a escola social, onde a aprendizagem será colaborativa. Não é que a escola de hoje deixará de existir. É uma camada que complementa a outra. Logo, temos que educar visando esse novo comportamento, através de uma pedagogia de aprendizagem coletiva permanente.
Gestão Educacional: E como os professores podem orientar os alunos?
Pierre Lévy: Primeiro, devem ensinar sobre responsabilidade social para a memória coletiva. Tudo o que você posta na internet contribui para a memória coletiva. Segundo, é preciso ter um espírito crítico. Os alunos devem saber separar as fontes boas e as fontes ruins, porque um mesmo evento pode ser contado de diversas formas. Depois vem a gestão da atenção, como já citei. Outra coisa importante é a necessidade de produzir para assimilar. É a transformação da informação em conhecimento.
Gestão Educacional: Como serão os alunos do futuro?
Pierre Lévy: Serão pessoas criativas, abertas, colaborativas e, ao mesmo tempo, terão a capacidade de se concentrar, porque terão uma mente disciplinada. É necessário ter um equilíbrio entre dois aspectos: o primeiro é a imensidão de informações, contatos, colaborações. O outro é o aspecto de planejamento, realização de projetos, disciplina mental.

Fonte: http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/reportagens/entrevistas/115-internet-e-escola-de-maos-dadas

O potencial educativo dos celulares na educação

Os profissionais mais tradicionais ainda consideram os celulares “inimigos” da sala de aula, no entanto, muitos educadores e organizações tem percebido seu potencial. Em 2013 a Unesco publicou um guia com 10 recomendações para os governos desenvolverem políticas públicas que utilizem os celulares como recursos na sala de aula.

Esse guia foi apresentado na Mobile Learning Week, realizada em Paris, e teve como principal justificativa o fato de muitas instituições não saberem como utilizar essas novas tecnologias, apesar de a considerarem importantes. Foi no evento que os coordenadores da Unesco Brasil constataram que no país os professores possuem grande resistência ao uso dos aparelhos, pois eles próprios ainda não estão familiarizados com eles. Assim, definiram que o primeiro passo seria disseminar sua utilização na educação: tanto nos cursos presenciais, quanto nos realizados à distância, o que pode ser relativamente fácil, já que de acordo com estudo publicado pela GlobalWebIndexdois em cada cinco jovens brasileiros com idades entre 16 e 24 anos já passam mais de 2 horas ao dia navegando na internet nesses aparelhos.

As vantagens que os celulares podem ter no ensino já vem sendo estudadas há um tempo. A mestre em Educação Adriane Higuchi pesquisou o tema em sua dissertação de mestrado, realizada pelo Mackenzie, acompanhando uma turma de 15 alunos de uma escola pública de Mogi das Cruzes (SP), com o objetivo de identificar como o uso do aparelho de celular pode motivar e auxiliar no aprendizado. Uma das cenas que registrou foi o envolvimento e colaboração dos alunos na sala de aula: a professora da classe não possuía habilidade no manuseio de computadores e outros eletrônicos, no entanto, para exemplificar a matéria sobre os conflitos religiosos na Irlanda do Norte teve a ideia de apresentar aos alunos uma música da banda irlandesa U2. Como não possuía a gravação da música, levou à classe somente a letra impressa. Os alunos se interessaram de imediato e foram incentivados pela professora a procurar a canção em seus celulares. A iniciativa teve ótimos resultados. A professora percebeu o envolvimento e engajamento dos estudantes, inclusive dos com maiores problemas de disciplina, e também se surpreendeu quando os celulares foram espontaneamente desligados, para que a aula prosseguisse sem distrações.

Para Rafael Sanchez, Diretor dos Polos de Apoio do Centro Universitário UNINTER nas cidades de Bauru, Lençóis Paulista e Pederneiras, situações como esta tendem a se tornar cada vez mais comum, já que os celulares apresentam muitas possibilidades, como a “ampliação dos suportes de pesquisa e velocidade”. O diretor ressalta que antigos hábitos, como ir a bibliotecas e procurar por assuntos, página por página, nos livros, estão sendo modificados: “hoje só é necessário um clique e pronto, a grande maioria das informações estão disponíveis”, conta.  De acordo com Adriane essa característica é reforçada pelo fato da nova geração de alunos, criada no ambiente digital, impor uma nova cultura, que altera o modo como a sociedade e os indivíduos interagem.

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“O maior desafio está relacionado à necessidade do professor se libertar dos processos tradicionais de ensino-aprendizagem”, conta o Diretor Rafael Sanches
Característica também percebida pela professora de informática Tania Knittel, que leciona em uma escola particular de São Paulo. “Não há como fugir, em todas as matérias é possível utilizar esses aparelhos dentro da programação da aula, o que faz com que os laboratórios se tornem obsoletos”. Ela acredita que devido ao contexto digital atual, no futuro, o laboratório de informática desaparecerá.

Tania também realiza um mestrado sobre a utilização de dispositivos móveis dentro da sala de aula e destaca que na pesquisa realizada com os alunos o que mais surpreendeu foi o fato de eles próprios terem consciência dos pontos negativos e positivos dos aparelhos. Acompanhou turmas do 9º ano ao 3º colegial, elencando certas competências que deveriam ser desenvolvidas pelo uso dos celulares na sala de aula. As atividades envolviam linguagem de códigos em português, espanhol e inglês, como a criação de um áudio em inglês para um vídeo sem som, assistido pelo celular, e a montagem de uma história em quadrinhos em espanhol.

Durante as atividades os próprios alunos sugeriam aplicativos e metodologias para usar os aparelhos na aula. A ideia era incluir o aluno: “perguntamos para os alunos como gostariam de usar os celulares. Foram citados vários pontos, desde agenda para anotar atividade, até elaboração de texto, vídeo, entre outros”.

Entretanto, durante o período em que acompanhou os alunos percebeu que muitos classificavam o uso do celular como distrativo, pois recebiam muitas mensagens e tinham acesso as redes sociais, o que fazia com que durante as aulas, após o uso do dispositivo nas atividades, os alunos o colocassem no modo avião.

Tania
“Os alunos perceberam que os celulares podiam ser utilizados para outras atividades, inclusive educacionais”, afirma Tania Knittel
Mesmo com aspectos negativos, como o destacado pelos alunos na pesquisa realizada por Tania, a acessibilidade dos celulares é um dos principais atrativos do dispositivo quando pensa-se em educação. Rafael pontua que os inúmeros recursos que possui, como áudio, vídeo e outros aplicativos, o tornam um facilitador. Além disso, “a mobilidade é um grande diferencial, o que tem colaborado para que sua presença na sala de aula seja cada vez mais frequente, tanto no EAD como no ensino presencial”.

Entretanto, de acordo com  a Mestre em educação Adriane, para que seu uso seja efetivo é preciso inserir a tecnologia dentro de um contexto, com objetivos e metodologias específicas. Para o diretor Rafael esse é um dos principais desafios: “como o usuário tem acesso a tudo, é muito fácil se desconcentrar e entrar em sites de variedades ou redes sociais. Isso pode tirar o foco da atividade proposta e diminuir os resultados esperados”. Dessa maneira, a recomendação é que os professores sejam treinados, de preferência, usando tecnologias móveis. Somente com esse treinamento é possível criar estratégias pedagógicas que unem tecnologia à educação: “uma das estratégias é alternar o uso dos dispositivos com interações ‘off-line’, tanto na EaD, quanto na presencial. Assim, aproveita-se o que o celular tem de melhor, que é a facilidade de acesso e pesquisa, evitando-se a perda do foco”.

Regras

Apesar da Unesco também aconselhar a criação de políticas de uso ligadas ao aprendizado móvel, para Rafael não é preciso criar regras. Ele acredita que isso só se aplica em atividades específicas.  “Por esse motivo é muito importante o planejamento antecipado da aula e do momento que os dispositivos poderão ser utilizados”, diz.

Tania destaca que se a atividade for interessante “o próprio aluno se posiciona, não é preciso ter normas. Você não vai se distrair com outros recursos”, diz. Ela também complementa que desde que seja combinado com o aluno o uso do dispositivo, não há problemas, “o aluno segue a orientação combinada com o professor”.

O grande número de recursos e aplicativos nos celulares também podem se tornar uma ótima ferramenta para o professor: Tania acredita que esses canais possibilitam a discussão e debate sobre os conteúdos. Além disso, “muitos alunos tem utilizado os aplicativos para criar grupos de estudos, onde trocam áudio, arquivos e informações”.

O que ainda constitui um ponto limitador é o acesso à internet. “No Brasil a internet ainda não é 100%, eu tenho 4G, mas na maioria das vezes a conexão não funciona”, exemplifica a professora. Rafael também destaca a carência de algumas regiões do país. “Mesmo dentro do estado de São Paulo, não existem opções para a população contratar uma internet de banda larga, o que interfere na visualização de vídeos com grande potencial educativo”, diz.

Veja abaixo outras recomendações da Unesco para a utilização de dispositivos móveis dentro da escola:

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Fonte: http://cloud-ead.programmers.com.br/blog/o-potencial-educativo-dos-celulares-na-educacao/

O USO DE OBJETOS DE APRENDIZAGEM NA EDUCAÇÃO: RECURSOS DIGITAIS INTERATIVOS EM REPOSITÓRIOS GRATUITOS

Por Flávia Maria Gomes

Resumo

Os objetos de aprendizagem (OAs) são recursos digitais que podem ser utilizados no processo de ensino e aprendizagem, na educação formal e informal. Serão analisadas algumas discussões no que remete a aprendizagem através do uso de OAs, de acordo com a aprendizagem significativa estudada por Ausubel. Deseja-se então, divulgar alguns destes ambientes para motivar ao uso e disseminar os endereços eletrônicos onde eles podem ser encontrados, já que existem variados repositórios gratuitos na internet onde estes recursos interativos podem ser acessados por qualquer pessoa. Entende-se que é necessário maior divulgação destes repositórios e utilização deles no contexto de sala de aula, uma vez que os recursos tecnológicos estão cada dia fazendo parte do dia a dia de muitos indivíduos, principalmente dos estudantes de qualquer faixa etária.
Texto completo: PDF

Fonte: http://www.sied-enped2014.ead.ufscar.br/ojs/index.php/2014/article/view/605

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

“Tecnologia existe para melhorar as relações entre professores e alunos”, diz fundador da Khan Academy



Rede Universia entrevista fundador da plataforma Khan Academy, Salman Khan. Leia a entrevista

Fonte: Divulgação
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Salman Khan: o e-learning pode mudar sim o papel dos professores na educação
Falamos, por e-mail, com o fundador da plataforma, Salman Khan da Khan Academy . Físico formado pelo MIT, Khan dava aulas despretensiosas de matemática e as postava no YouTube para ajudar seus primos. Com vídeos curtos e simples, suas explicações ficaram tão populares na internet que ganharam o mundo nascendo, assim, a Khan Academy. A plataforma tem tradução para o português graças a uma parceria da Fundação Lemann. Nela, o estudante só avança quando o aprendizado estiver consolidado.

A seguir, leia a entrevista da rede Universia com Salman Khan:

Universia Espanha - O e-learning muda o papel dos professores na educação? 

Bons professores sempre foram os únicos capazes de mudar a mentalidade dos seus alunos. Mais do que excelentes professores sobre um determinado tema, eles são os únicos que conseguem promover um amor pelo aprendizado em geral, que dura por toda a vida de um estudante. Acreditamos que ferramentas como Khan Academy permitem que os professores dediquem ainda mais energia nessa tarefa tão importante gastando menos tempo ensinando e elaborando testes de avaliação, mas sim se relacionando com os seus alunos e os ajudando a liderar projetos. Então, a resposta é sim: o papel do professor pode mudar com o e-learning, mas de uma forma que está mais relacionada com o que os grandes mestres sempre fizeram.

Universia Colômbia - Como a capacidade de um estudante pode ser medida no e-learning? 

Há várias maneiras interessantes de medir o progresso desse estudante. No Khan Academy, por exemplo, qualquer aluno pode acompanhar seu próprio progresso através do nosso painel de aprendizagem. Lá, eles ficam sabendo tudo o que conquistaram (medalhas e pontuações) - o que é muito motivador. Para os professores e tutores, há também um painel com a mesma proposta. Um professor pode ver quais dos seus alunos podem estar com mais dificuldade em uma determinada lição e intervir para ajudá-lo.

Universia Brasil - Poderia, por favor, nos dizer quem você sempre admirou e por quê? 

economista Muhammad Yunus é um dos meus heróis. Como fundador do banco Grameen Bank, ele passou a oferecer microcrédito para milhões de famílias pobres de Bangladesh. O que é realmente inspirador sobre o seu trabalho é que ele viu uma maneira diferente de ajudar as pessoas. Ele observou mulheres em Bangladesh não faziam nada porque não podiam comprar os seus próprios equipamentos (que custavam poucos dólares). Ele, então, fez um empréstimo para algumas pessoas dando oportunidades, e viu que esse ato simples foi capaz de mudar a vida de uma pessoa necessitada.

Universia Porto Rico - Como o e-learning complementa o ensino tradicional de forma eficaz? 

Uma das ideias para isso eu escrevi em meu livro The One World Schoolhouse. A tecnologia deve ser vista como ferramenta para melhorar e fortalecer as relações entre professores e alunos. O e-learning desafoga o professor permitindo que ele tenha mais tempo para conversar com seus alunos e explorar novas ideias em sala de aula.

Universia Brasil - Você mencionou que a missão do Khan Academy é proporcionar uma educação gratuita, de qualidade, para qualquer pessoa e em qualquer lugar. Esse é um grande objetivo. Está dando certo? 

Estamos no início de um dos pontos de inflexão mais importantes da história: a Revolução da Informação. Acredito que em mil anos, os historiadores olharão para trás e considerarão esse momento tão importante como foi a Revolução Industrial, o advento da imprensa ou até mesmo a agricultura. Acredito que o principal benefício da Revolução da Informação é também a sua principal desvantagem: aumenta a produtividade e riqueza, com o risco de marginalizar aqueles com menos recursos ou educação. Sempre sonhei que, talvez, o Khan Academy poderia ser uma instituição global que aproveita a Revolução da Informação para resolver esse problema. Se pudermos ajudar para que um número muito maior de pessoas entre na sala de aula qualificada, haverá equidade e estabilidade na sociedade. Desta forma, a Revolução da Informação avança e acelera. Em minha mente, a nossa missão deve ter essa ambição.

Fonte: http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2014/08/05/1109158/tecnologia-existe-melhorar-relaces-professores-alunos-diz-fundador-khan-academy.html