quinta-feira, 14 de maio de 2015

A mudança nas formas de ensinar e aprender na era digital

Juan Ignacio Pozo & Carlos de Aldama  

Se o conhecimento não é um fim em si mesmo, mas o meio para construir competências nos alunos, as TICs são ferramentas extraordinariamente poderosas e um espaço para construir uma nova cultura de aprendizagem
Será que algo realmente mudou nas formas de ensinar e aprender na era digital? Essa é uma pergunta que nos fazemos com frequência todos os que nos preocupamos com a educação. Será que houve mudanças reais, substanciais, nas formas de ensinar e aprender em nossas salas de aula, em particular no ensino médio, como consequência do impacto das tecnologias da informação e da comunicação (TICs) na sociedade?

Quando perguntamos aos próprios docentes ou rastreamos os estudos a respeito realizados nas últimas décadas, a resposta pode ser ambígua, quando não contraditória. Encontramos desde os otimistas que apostam entusiasticamente no uso das TICs em sala de aula até aqueles que, ao contrário, mostram-se pessimistas e acreditam que a gestão da informação digital, por seu imediatismo, superficialidade e falta de reflexão, supõe um empobrecimento das formas de pensar e conhecer. E, finalmente, há os céticos que, ao analisar não o que deve ser, e sim o que realmente aconteceu até agora, observam que as TICs não tiveram quase nenhum impacto.

Na sequência, vamos rever brevemente cada uma dessas três posições (otimista, pessimista e cética) a fim de mostrar que elas podem ser visões complementares e que é possível conciliá-las em uma visão moderadamente otimista. Para isso, deveremos assumir boa parte dos argumentos pessimistas e céticos se realmente desejamos que as TICs tornem-se um meio para transformar, como parece necessário, as formas de ensinar e aprender em sala de aula, particularmente no ensino médio. 
O argumento otimista: o poder transformador das TICs
Há quem aposte entusiasticamente no papel transformador das TICs nas formas de ensinar e aprender. Essas pessoas apoiam-se na ideia de que a interação com tais tecnologias é muito atrativa para os adolescentes de hoje, verdadeiros nativos digitais, segundo a feliz expressão de Prensky (2001). Eles já naturalizaram o uso dessas tecnologias, que são mais sensíveis às necessidades do aluno. Dessa maneira, cresceram seu interesse e sua competência no uso da informação e do conhecimento. Os principais avanços introduzidos pelas TICs são apresentados a seguir (de Aldama, 2012; Coll e Monereo, 2008; Collins e Halverson, 2009).
  1. Adaptação ao aprendiz: a imensa quantidade de informação e recursos disponíveis na rede permite ao usuá­rio selecionar a informação que mais se ajusta aos seus interesses e necessidades, o que favorece a autorregulação e o controle da própria aprendizagem. É o aprendiz quem decide o quê, como e quando aprender.
  2. Interação: as TICs favorecem um cenário dialógico em que cada ação do aprendiz pode ser acompanhada de um feedback. Um bom uso dessas tecnologias permite ao usuário tomar consciência de seus próprios atos (função metacognitiva).
  3. Apoio: um dos problemas mais comuns no ensino tradicional é o aprendiz não ver sentido na tarefa, seja porque ela se situa muito abaixo ou muito acima de sua zona de desenvolvimento proximal. As TICs permitem oferecer as ajudas adequadas a cada aprendiz em cada momento.
  4. Jogos e simulação: as TICs permitem simular cenários de aprendizagem real, ao mesmo tempo em que reduzem as consequências negativas que poderiam advir nesse contexto. 
  5. Multimídia: graças às novas tecnologias, o conhecimento elaborado em sala de aula passa do formato impresso (próprio do ensino tradicional) para um formato multimídia, ampliando enormemente as modalidades de expressão e comunicação.
  6. Publicação: nas aulas tradicionais, os alunos consomem informação ou, no melhor dos casos, produzem algum conteúdo que será supervisionado apenas pelo docente. As TICs permitem mostrar criações próprias e originais a um público real. 

O argumento pessimista: as TICS empobrecem as formas de ensinar e aprender
De uma ótica completamente oposta à anterior, os pessimistas sustentam que a interação com a informação na era digital supõe um empobrecimento das formas de conhecer, na medida em que promove o imediatismo, a superficialidade e a falta de reflexão, como demonstram as conversas nas redes sociais (Carr, 2011). Existe algo realmente importante do ponto de vista do conhecimento que se possa dizer em um tweet, em 140 caracteres, pouco mais de 20 palavras (mais ou menos o que utilizamos para formular essa pergunta)? Nesse sentido, os argumentos essenciais a favor dessa posição estão listados a seguir (de Aldama, 2012; Carr, 2011, Collins e Halverson, 2009).
  1. Empobrecimento cognitivo na era digital: os alunos estão acostumando-se a um acesso imediato à informação, que não requer deles um processo de reflexão e construção pessoal. Além disso, é comum realizarem várias tarefas ao mesmo tempo, o que impede um processamento elaborado da informação.
  2. Gestão da sala aula: são frequentes as dificuldades na gestão da sala de aula com a introdução das TICs, devido à escassez de recursos (na absoluta maioria dos casos, os alunos são obrigados a compartilhar os computadores) e perda do controle sobre as tarefas que os alunos realizam. 
  3. Os computadores não podem ensinar tudo: as novas tecnologias proporcionam conteúdos, mas em nenhum caso chegarão a ensinar tudo o que é necessário. As aprendizagens sociais e atitudinais devem ser mediadas pelo docente.
  4. Autoridade e ensino: alguns docentes, acostumados a que sua autoridade repouse sobre os conhecimentos e sabedoria que compartilham com os alunos, sentem-se amea­çados ao constatar que as TICs estão cumprindo suas funções. Se antes o único conhecimento legítimo que emergia em uma sala de aula era aquele proporcionado pelo docente, hoje a informação e suas fontes multiplicam-se quase indefinidamente. Esses condicionantes supõem um desafio e um esforço redobrados para os docentes, que se veem forçados a modificar seus modelos de ensino e instrução.
     
O argumento cético: será que algo realmente mudou?
Por fim, podemos apontar uma terceira visão, mais cética ou incrédula, segundo a qual as mudanças não são nem positivas nem negativas, pois simplesmente não houve mudanças de fato: as formas de ensinar e aprender na era digital são as mesmas que sempre predominaram na escola, apenas se modificando o suporte quando as TICs são introduzidas em sala de aula (o que não é muito comum).
Esse argumento cético apoia-se em dados de pesquisas que indicam que os alunos, quando processam informações digitais, costumam ter dificuldade para converter essas informações em verdadeiro conhecimento (Pozo, 2002, 2004). Por exemplo, o Informe PISA-ERA 2009 mostra, ao contrário do argumento otimista, que a leitura digital dos adolescentes em muitos países — incluídos todos os da América Latina, entre os quais o Brasil — é pior que a sua leitura tradicional em papel. Listamos a seguir as deficiências que podem ser observadas (Coll e Monereo, 2008). 
  1. Estratégias de seleção das informações: os alunos não sabem buscar e selecionar as informações relevantes, deixando-se levar pelo próprio fluxo e formato em que se apresentam.
  2. Tradução da informação de um código a outro: os alunos têm dificuldade quando as informações são apresentadas em códigos diferentes (texto, imagens, etc.) e é necessário traduzi-las de um para outro.
  3. Integração de diferentes fontes e tipos de informação: para além da dificuldade de tradução, há problemas quando os alunos deparam-se com informações diversas ou contraditórias, como ocorre nos espaços virtuais, onde nunca se tem um saber consolidado e estabelecido.
  4. Tendência a reproduzir em vez de refletir sobre a informação encontrada: no melhor dos casos, quando se deparam com informações diversas, os alunos tendem a usar o “recortar e colar” em vez de procurar construir sua própria visão, integrando essas diversas posições. 
     
Para além do ceticismo: novos usos das TICs para mudar as salas de aula
Em suma, boa parte dos adolescentes nativos digitais tem uma alfabetização digital (sabe usar as TICs), mas não tem uma alfabetização digital que os habilite com as estratégias necessárias para transformar essa informação a que conseguem ter acesso — muitas vezes melhor que seus professores! — em conhecimento autêntico. Essa é uma demanda imprescindível para construir uma verdadeira sociedade do conhecimento, que requer uma nova cultura da aprendizagem (Pozo, 2002, 2004) — uma cultura que implica o uso das TICs não para reproduzir velhos hábitos de ensino e aprendizagem transmissivos, e sim para fomentar novas formas de aprender e ensinar em que o docente seja o mediador de um diálogo que transcenda a sala de aula para incorporar os novos espaços de conhecimento abertos pelas TICs. Concretamente, os modos de gerir a informação através das TICs deveriam ajudar a promover três mudanças essenciais nas formas de ensinar e aprender, tal como segue.
  1. A passagem de uma epistemologia realista centrada na transmissão de conhecimentos “verdadeiros”, consolidados, para uma gestão da incerteza, mais característica dos tempos atuais. Se, como disse Morin (1999), conhecer e saber hoje não é apropriar-se de verdades, mas sim gerir a incerteza própria destes tempos, as TICs devem ser uma ferramenta essencial para dotar a os alunos de competências para navegar nessa incerteza.
  2. A passagem de uma gestão unidirecional do conhecimento (monológica) para uma gestão multidirecional (dialógica). Devemos passar das salas de aula nas quais só se ouve a voz do conhecimento estabelecido na voz do  docente ou do livro de texto para um espaço dialógico, mas baseado em um diálogo muito diferente daquele do que se produz nas redes sociais. Aqui não se trata de trocar opiniões, e sim de construir argumentos e conhecimentos através de um diálogo mediado pelo docente. 
  3. A passagem de representações estáticas e proposicionais apoiadas em “ilustrações” para a integração dinâmica de múltiplos sistemas de representação. Diferentemente dos sistemas mais tradicionais, as TICs permitem àquele que interage com a informação que não apenas a receba, mas que também a transforme, que produza novas representações e conhecimentos compartilhados, baseados em múltiplos códigos distribuídos tanto no espaço quanto no tempo, o que nos aproxima da ideia do aprendiz como construtor do próprio conhecimento. Porém, sabemos que, para que essas mudanças ocorram, é necessário não apenas dispor desses recursos tecnológicos em sala de aula, que seria uma primeira barreira, mas também mudar a forma como professores e alunos concebem seu uso e suas funções — em suma, mudar suas mentalidades ou concepções de ensino e aprendizagem (Pozo et al., 2006; Pozo e Pérez Echeverría, 2001). De uma perspectiva tradicional ou direta, na qual a função da educação é transmitir aos alunos saberes estabelecidos, bem definidos, o impacto das TICs limita-se a mudar o suporte da prática docente em vez de transformá-la (de Aldama, 2012). Contudo, se acreditamos que o conhecimento não é um fim em si mesmo, mas o meio para construir competências nos alunos, para dotá-los de estratégias que convertam a informação em conhecimento, então as TICs constituem não apenas ferramentas extraordinariamente poderosas, mas também um novo espaço para construir uma nova cultura de aprendizagem em nossas salas de aula.
     
  • Juan Ignacio Pozo é professor de Psicologia da Aprendizagem na Faculdade de Psicologia da Universidade Autônoma de Madri (Espanha).
  • Carlos de Aldama é psicólogo e pesquisador na Faculdade de Psicologia da Universidade Autônoma de Madri (Espanha).
     
  • Fonte: https://www.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/9903/a-mudanca-nas-formas-de-ensinar-e-aprender-na-era-digital.aspx

Um comentário:

Sebastião Ferreira disse...

É preciso que os professores e educadores se apropriem dessas ferramentas ,as TICS e se diponham a aprender com seu alunos e promovam a troca de saberes. As inovações tecnologica devem se relacionar com as inovaçõees didáticas. As Tecn ologias podem ser usada de form tradicional por um professor tradicional. E isso não é um avanço. As TICS só faz sentido quando o professor esta disposto a buscar um novo jeito de aprender e uma nova forma de ensinar. Um forte abraçao
Sebastian